29/04/2009

Adoro perigo

Pode ter sido uma queda de pressão por não ter comido ou a mistura de quatro remédios pra sarar tudo menos dor de cotovelo. Só vou descobrir na consulta de segunda-feira no oftalmologista por que ontem, no fim do dia, minha visão caiu pra uns 50%. Poderia ter tomado um táxi, pedido ajuda, ligado chorando pra minha mãe, mas escolhi a experiência sensorial de voltar pra casa à noite enxergando muito pouco.


Fui à manicure depois do trabalho e saí com um tom de vermelho de gosto duvidoso. Caminhei vinte e poucos minutos até o ponto de ônibus descobrindo um novo universo a cada quarteirão. É real aquela história de que na ausência de um sentido todos os outros se esforçam pra compensar a deficiência.


Vendo vultos, virei a mulher da audição supersônica. Ouvia até alfinete caindo, como naquele comercial da Polishop (só não valia ouvir conversas na sala ao lado, lembra?). Uma moto se aproximando soava como um boing, evitando um atropelamento, e as cantadas sinalizavam obras a 15 metros.


Já no ponto, um cara deve ter me tomado como analfa, quando perguntei se aquele era o ônibus que eu precisava pegar. Estava bem vazio, com pouca coisa pra tentar assimilar. Quer dizer, visualmente. Sujeito sentado atrás de mim sacou o celular. Um jeito peculiar de conduzir a conversa. Conhece o menino do “atóron perigo”? http://www.youtube.com/watch?v=jzQIcrgDXHw&NR=1 Então, era bem essa a pegada:


- Oin, me ligóun? Que que cê qué?… Naumm… Naum póósso… Hoje vou maquiar a (nome de apresentadora de TV famosa, jovem e linda). É… chiqqqqq, néam?… É aquéééla… que namorou o piloto de corrida (playboy filho de empresário poderoso). Namorou, néam… Agora dá mais que périquita na gaiola… (e eu que achava que periquita presa se comportasse) Háááááhaha… (risada estilo Clodovil).


E foi ali mesmo no busão que fiquei antenada no que rolava de mais descolado na noite de terça-feira em SP. A maquiagem era pra dar pinta em um evento na Dáslu, patrocinado pela Skol.


- Pois éan… Mas na Eliaaana (sim, da Dáslu) eu não faço maquiagem nem por um milhããõoo de reaaaais… Uó!!! Háááááhaha… (risada estilo Clodovil). Ai… isso me cansa (verdade, cansa), sabiânn?


Atóron.

11/04/2009

Pérola negra

Ao pé da letra, é um glóbulo duro, brilhante, nacarado, que se forma nas conchas dalguns moluscos bivalves. Ou, ainda, uma pessoa de ótimas qualidades morais. Isso, claro, segundo a sétima impressão da terceira edição revista e ampliada do meu minidicionário comercializado lá por 1997.

Na prática, nunca escaparia de conchas bem fechadas, tampouco de lábios repletos de tanto moralismo. Pérola é o que resulta de raciocínios mais complexos do que uma fórmula de física ou uma sinfonia do século XIX. É o pensamento ou ação incompreensíveis para mentes rasas e conservadoras produzidos numa fração de segundo em que a razão dá lugar a sabe-se lá o que formulando frases de efeito e momentos inesquecíveis.

Pérola é humor negro, besteirol – aparentemente – sem sentido que torna a rotina mais divertida e inusitada. Minha vida é um colar delas, que aumenta a cada dia formando um fio emaranhado e muito pouco glamouroso.